segunda-feira, julho 30, 2007

Reflexão quanto à originalidade

A originalidade faz-se valer no “tempo presente” do artista, é fruto do momento histórico que ele está associado e das ferramentas musicais que abraçou em seu trabalho.

Webern foi original, pois estava à frente da vertente que ele defendia, como também o fez Stravinsky, em seu Le sacre du printemps ou mesmo Beethoven, que proporcionou em suas composições, grande avanços, bastando citar a nona Sinfonia ou a Grande Fuga e tantos outros compositores que contribuíram para o desenvolvimento desta arte.

O fato de defender o conceito de música original, de uma nova vertente original, não destrói de forma alguma os conceitos musicais instituídos por compositores que o antecederam e que continuam a desenvolver os conceitos que acreditam.

Não podemos então dizer que Schoenberg está morto e considerar que os compositores de música concreta, eletroacústica ou qualquer outra que venha a surgir, (vertentes desenvolvidas depois do serialismo) como os senhores da nova arte. Estaríamos condenados em um futuro muito próximo, a sermos destruídos pelas prováveis revoluções intelectuais subseqüentes. Xenakis refuta e repudia a música serial, logo, ele repudia Webern. Ora, se fossemos obrigados e aceitar a originalidade de Xenakis como a verdade absoluta, com sua tentativa de "unificar" arquitetura e música reivindicando a especulação abstrata, teríamos que considerar Webern como coisa do passado, algo morto; sabemos que sua arte, do Webern, ainda permanece nos altares do nosso presente.

Não podemos então considerar tudo que aconteceu ontem esteja obsoleto. Tudo faz parte de nossa escolha no plano da evolução temática através dos tempos. Concordo que todos nós temos escolhas; a arte é individual com todas as suas forças e amplitude de criação. Temos vários caminhos a escolher; novas estradas não desvinculam de nossas escolhas aquelas que já existiam, de maneira alguma. Qual o objetivo de todas essas estradas? Onde ela nos leva?

- A uma satisfação que somente nossa alma, através do tratamento dos sons à maneira que acreditamos (matérias prima de todas as vertentes), encontrará como ponto de repouso.

domingo, maio 06, 2007

Perspectiva sobre o adjetivo Mozartiano

Antes de tudo, dissertar sobre o adjetivo “mozartiano” não é tarefa das mais fáceis, mesmo quando se “observa” sobre o ponto de vista de autores como Hocquard. Acredito que ninguém seja capaz de esclarecer totalmente o que diz respeito ao poder mozartiano, salvo o próprio Mozart... contudo, nós humanos estamos condicionado a “definir” e/ou “compreender” tudo o que nos envolve e fascina.

Hocquard, como praticamente qualquer outro biógrafo sério de Mozart, aponta as obras do compositor como algo tão magnífico que o coloca no limiar do sobre-humano. Trata da pureza de suas melodias e de sua memória pródiga. Como bem se sabe, Mozart tinha plena noção de sua grandeza como compositor na Europa. Aprendeu a compor todos os estilos existentes em sua época.

A transição do estilo galante das primeiras obras para o “absoluto” das obras da maturidade foram concebidos sob a preocupação em fazer música que satisfizesse os leigos e conhecedores. Seus mais introspectivos trabalhos estão nas obras de câmara, mergulhou nelas toda sua alma; suas óperas, mais precisamente em Don Giovanni e a Flauta Mágica, “A obra de arte absoluta”, como assim representou o que Otto Maria Carpeaux denominava. No final da vida, nos últimos anos, alguns detalhes como; a idéia da morte e os pensamentos maçônicos, atormentaram a obra do compositor ou outros como Mozart utiliza o trombone em sua música, geralmente quando quer representar algo metafísico ou sobrenatural.

No final da caminhada, todos aqueles que trilham sua busca em desvendar o segredo mozartiano, só chegam a uma única conclusão... “Mozart, o Divino”... “Mozart, o único”. Existe algo na música de Mozart que o torna anjo, que o torna demônio... isso é o “mozartiano”... não há interferência do meio em sua música, ela é pura, “engenhos abstratos do intelecto”(Holbein Menezes), Richard Wagner comentou certa vez sobre uma modulação de Mozart... “Poderia compor duas Óperas inteiras minhas naqueles dois compassos”.

A percepção que tenho sobre o adjetivo “mozartiano”, idéia está adquirida após a leitura do “Mozart” de Hocquard e de minhas próprias opiniões, está além das interpretações das técnicas usadas nas suas composições, está pura e absolutamente nas sensações, nas cores de suas melodias e harmonias, o mozartiano é o que ele, Mozart, nos faz sentir quando o escutamos. Mozart está “além” pelo simples fato de ser o único.

Um dia perguntaram a Rossini...
“Maestro, quem você considera o melhor compositor?”.
ele respondeu...”Beethoven”...
- e Mozart?” perguntaram novamente...
”Ah... Mozart é o único...”

por Paulo Couceiro

segunda-feira, abril 23, 2007

A arte prescinde do artista?

Reflexões,

Stravinsky, em sua “Poética musical em 6 lições”, uma publicação do texto de conferências realizadas na Universidade de Harvard em 1939, aborda em certo momento a questão do fenômeno musical. Comenta o ato do prazer de que nós (ou a maioria de nós) estamos sujeitos a deleitar sobre os sons da natureza; do vento, dos pássaros ou de uma cachoeira. Não seria muito escutar alguém comentando “que bela música o canto dos pássaros”, contudo, em sua análise, Stravinsky se porta ao pensamento de que, para ser música, os sons precisam ser organizados juntamente com o tempo por alguém, neste caso um ser humano, capacitado de faculdades intelectuais e culturais suficientes para esta realização. Um ser privilegiado.

A Arte neste caso, só se transforma em Arte através da intervenção humana, associando a esta, suas técnicas, ideologias, momento histórico.

Compartilho do pensamento de que para se compor música, não se precisa necessariamente pensar uma bela paisagem, em alguma pessoa especial ou em qualquer outra coisa que não seja a mera técnica musical, mas isso não pode tirar (e não tira) de maneira alguma, a ligação entre a Arte (obra) com o seu Criador (compositor). Mesmo que o compositor componha totalmente seco com relação a qualquer pensamento extra-musical, sua maneira de pensar (na música) estará evidente no discurso de sua melodia e de sua harmonia, na textura e densidade com que irá tratar as idéias musicais.

Se para fazer arte, não precisasse de um individuo devidamente capacitado de sua faculdades, toda a arte seria igual ou no mínimo poderia ser igualada por qualquer pessoa. Qualquer um que estudasse técnicas avançadas de composição seria capaz de compor ao nível de Beethoven, Mozart ou Brahms. Sabemos de fato que a história não funciona assim.

A necessidade (e a evidência) da íntima união entre obra e criador, debruça-nos no momento em que escutamos algo de quem não sabemos ou quando vemos uma ótima pintura nova, a primeira coisa que perguntamos, ainda admirando a arte é: “quem compôs essa obra belíssima?” ou “quem foi capaz de pintar traços tão maravilhosos?”O Criador completa a Arte assim como a Arte completa o Criador. É a própria necessidade e natureza humana a busca da união e compreensão de um todo. Como poderíamos escutar uma obra ao nível de uma Appassionatta de Beethoven sem saber que é de Beethoven ou contemplar o Le moulin de la Galette sem saber que é de um Renoir. Se a arte não se ligasse intimamente com o criador, qualquer pessoa poderia ter composto e pitado essas obras, posto que se desconhecêssemos quem os criou.

Logo, minha reflexão perante tal enlace, solidifica-se ao pensamento de que a Arte e o Criador são integralmente inseparáveis; seja por inspiração, sentimento ou técnica.

por Paulo Couceiro