segunda-feira, abril 23, 2007

A arte prescinde do artista?

Reflexões,

Stravinsky, em sua “Poética musical em 6 lições”, uma publicação do texto de conferências realizadas na Universidade de Harvard em 1939, aborda em certo momento a questão do fenômeno musical. Comenta o ato do prazer de que nós (ou a maioria de nós) estamos sujeitos a deleitar sobre os sons da natureza; do vento, dos pássaros ou de uma cachoeira. Não seria muito escutar alguém comentando “que bela música o canto dos pássaros”, contudo, em sua análise, Stravinsky se porta ao pensamento de que, para ser música, os sons precisam ser organizados juntamente com o tempo por alguém, neste caso um ser humano, capacitado de faculdades intelectuais e culturais suficientes para esta realização. Um ser privilegiado.

A Arte neste caso, só se transforma em Arte através da intervenção humana, associando a esta, suas técnicas, ideologias, momento histórico.

Compartilho do pensamento de que para se compor música, não se precisa necessariamente pensar uma bela paisagem, em alguma pessoa especial ou em qualquer outra coisa que não seja a mera técnica musical, mas isso não pode tirar (e não tira) de maneira alguma, a ligação entre a Arte (obra) com o seu Criador (compositor). Mesmo que o compositor componha totalmente seco com relação a qualquer pensamento extra-musical, sua maneira de pensar (na música) estará evidente no discurso de sua melodia e de sua harmonia, na textura e densidade com que irá tratar as idéias musicais.

Se para fazer arte, não precisasse de um individuo devidamente capacitado de sua faculdades, toda a arte seria igual ou no mínimo poderia ser igualada por qualquer pessoa. Qualquer um que estudasse técnicas avançadas de composição seria capaz de compor ao nível de Beethoven, Mozart ou Brahms. Sabemos de fato que a história não funciona assim.

A necessidade (e a evidência) da íntima união entre obra e criador, debruça-nos no momento em que escutamos algo de quem não sabemos ou quando vemos uma ótima pintura nova, a primeira coisa que perguntamos, ainda admirando a arte é: “quem compôs essa obra belíssima?” ou “quem foi capaz de pintar traços tão maravilhosos?”O Criador completa a Arte assim como a Arte completa o Criador. É a própria necessidade e natureza humana a busca da união e compreensão de um todo. Como poderíamos escutar uma obra ao nível de uma Appassionatta de Beethoven sem saber que é de Beethoven ou contemplar o Le moulin de la Galette sem saber que é de um Renoir. Se a arte não se ligasse intimamente com o criador, qualquer pessoa poderia ter composto e pitado essas obras, posto que se desconhecêssemos quem os criou.

Logo, minha reflexão perante tal enlace, solidifica-se ao pensamento de que a Arte e o Criador são integralmente inseparáveis; seja por inspiração, sentimento ou técnica.

por Paulo Couceiro